[extraído de O Caravançará do Deserto]
"Dia 29 de outubro de 2006 é uma data importante para este país. Foi o dia em que o brasileiro decidiu esquecer uma impressionante e inédita seqüência de escândalos no governo federal e optou por reeleger um presidente da república notoriamente populista e despreparado.
Que motivos levaram o povo brasileiro a isso? Certamente não foi a rejeição ao outro candidato, que precisaria ser altíssima para superar a indignação de um povo que se vê enganado por seus governantes.
O povo não é cego. Viu o caso Celso Daniel. Viu os escândalos do Waldomiro Diniz, do mensalão, do Lulinha, das ambulâncias, do caseiro, do dossiê. Viu o sorriso cínico do Delúbio e viu dinheiro aos montes, em cueca, caixa de bebidas e sobre as mesas da PF. Viu o MLST planejar e invadir seu Congresso Nacional e depois ir pra casa. Viu sua Petrobrás ser roubada e o presidente proteger os culpados. O povo também não é surdo. O brasileiro ouviu o presidente dizer que a saúde pública no Brasil é "quase perfeita". Ouviu a música do PT nos programas eleitorais, cantando que "está tudo andando direitinho" e que deviam "deixar o homem trabalhar". Ouviu o termo "privatização" ser tratado como um crime, em uma ardilosa inversão de valores. Ouviu o Ministério Público nomeando os ladrões e ouviu gente séria perguntando de onde veio o dinheiro que irriga tudo isso.
O povo não é bobo. O povo sabe que o presidente sempre soube. Sabe também que um governante que ignora seria um chefe incompetente. Sabe que a PF investiga o PT apesar do governo e não por causa dele. Sabe o que é caixa-dois e sabe que o presidente do Brasil lidera os sonegadoresde impostos.
Assim mesmo, vendo, ouvindo e sabendo, o brasileiro não se indignou, não pintou a cara, não se ergueu, mostrando uma apatia que surpreendeu até petistas. Ao contrário, decidiu recontratar o presidente para mais quatro anos. Rui Barbosa escreveu, em Cartas de Inglaterra, que "a fragilidade dos meios de resistência de um povo acorda nos vizinhos mais benévolos veleidades inopinadas, converte contra ele os desinteressados em ambiciosos, os fracos em fortes, os mansos em agressivos." O povo pagará a conta de sua perigosa permissividade.
Não chegam a causar espanto os acordos que se vislumbram no meio político, frutos da surpreendente popularidade de um partido que protagoniza tantos escândalos; menos ainda sua estratégia clientelista, no estilo dos coronéis do nordeste, arrebanhando votos ao disseminar o medo de se perder o Bolsa-Família. Ao vermos este processo em dimensão federal, impressiona a concessão de que é capaz o brasileiro, este que não é cego, nem surdo e nem bobo, mas que baixou a cabeça e abriu mão de sua dignidade.
Pior que o "rouba mas faz" é o "rouba mas me dá". É preocupante o futuro deste país, agora que o PT expôs uma faceta do brasileiro que antes tinha vergonha de aparecer. O PT mostrou que conhece mesmo o povo e provou que no Brasil há, sim, espaço para um governo manipulador nos moldes dos piores vizinhos. Se quiser reescrever seu futuro, o brasileiro precisa refletir enquanto é tempo e erguer-se enquanto pode. Ou, como se diz: tomar vergonha na cara.
Pedro Drummond é engenheiro eletrônico em São Paulo e filho do inesquecível Olavo Drummond, amigo pessoal de Juscelino Kubitschek e imortal membro da Academia Mineira de Letras, na qual ocupara a vaga do presidente Tancredo Neves.
Honrou-me o Autor com o envio deste texto, e mais ainda com o permitir-me publicá-lo neste humílimo espaço."
e sem mais a dizer..
1.11.06
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